Quem nao se reconhece no ritmo cansado do quotidiano, nao deve dar relevância a este texto. Este, especificamente, é o texto dos quase desistentes ante a fúria do dia-a-dia. Mas quase, é a alternativa de quem leu o texto e arriscou. Reflictamos sobre a necessidade de reflectir... e de tomada de decisão.
Pedro é um empresário afamado pelo sucesso do seu empenho. Nao alcançou a riqueza de mão beijada, trabalhou arduamente para se lançar na ribalta dos que nada têm falta. No entanto, o percurso é travesso, eu diria que mais do que travesso, é irónico, malicioso e espreita por entre o suprimento das carências dos demais. Sortudo, como é chamado pelos íntimos da roda em que se insere, vive na casa acastelada da zona in do Porto. É difícil descrevê-la com a densa e luxuriante vegetação envolvente, que a oculta dos olhares furtivos.
De manhã, a esposa, seguramente recortada de um anúncio televisivo ou de uma passarela parisiense, acompanha-o ao luxuoso carro estacionado frente ao palacete. Têm dois filhos esculpidos a preceito que estudam no colégio dos pequenos génios onde praticam esgrima, vai-se lá saber porquê. Até o pequeno Rockfeller, perdigueiro altaneiro, se bamboleia pela propriedade de focinho e pelo lustrosos, discriminando os curiosos espécimes rafeiros estáticos frente às grades do portão.
O que traja tem nomes que nao ouso pronunciar por indignação e até mesmo por ignorância, são marcas que me ultrapassam e envergonham por desconhecimento. A esposa veste o que a luxúria vestiria se tivesse corpo, um estilo entre o arrojado e a perda absoluta dos limites deste. O estereótipo da mulher desejável pelo comum mortal. Pedro tem a vida que mais de metade não ousa sequer simular... que mais de metade nao faz ideia de como é feliz por não a viver.
Eu sigo-o até ao imponente edifício onde passa os dias mergulhado em reuniões, na azáfama costumeira dos executivos. O escritório onde decide o destino de centenas de empregados, de elevadas quantias de dinheiro, tem vista para o fundo do horizonte através das luzidias janelas que dão para o mundo. E quanto a férias, Pedro não se enquadra no grupo dos empresários que vive do e para o trabalho sem descanso. As férias, os feriados e fins-de-semana são sagrados como o sétimo dia para o Altíssimo. A união da família é a prioridade limite da fronteira com o dever, por vezes tomba para o ofício, mas raramente adia a família. Com um quadro assim, pintado a tinta de óleo utopia, é difícil imaginar que a alma de Pedro possa ser tão escura e viscosa como o crude que assola as praias aquando de um naufrágio. Também me custou crer que se pudesse ser tão ingrato com a bandeja de prata que a vida nos estende. O ser humano, seja ele quem for, é ingrato por génese e desde Génesis. O primeiro pecado não foi o da desobediência, como por aí se apregoa, mas o da tremenda ingratidão. Pedro peca como Adão, como Eva, como Pinóquio, como um bando de criaturas feitas à semelhança do inventor. Foi então que perdi a esperança em alcançar a perfeição, a tal felicidade enfadonha, alvo de um Universo intrinsecamente insatisfeito. Afinal, perseguimos o que jamais alcançaremos e alcançamos sempre o pedaço que falta para um fim que não chega.
Nessa manhã, a princesa da casa acastelada cumpriu o protocolo matinal e acompanhou o marido ao cavalo de raça pura e tudo se fez como se esperava que fosse feito, dentro da frivolidade diária. Mas o dia não seria como os outros, o príncipe acordara com a dor-de-cabeça dos homens que a determinada altura do percurso resolvem olhar para trás e questioná-lo. Não olhar para trás é uma das leis vigentes de quem quer chegar ao final da recta, de quem quer ser salvo. É um ensinamento ancestral que remonta a Sodoma e Gomorra e às estátuas de sal. Pedro fez-se sal nessa manhã e com ele tudo o que edificara ruiu.
Entrou no escritório e pediu o café habitual, bebeu-o como habitualmente o fazia, pegou na caneta e iniciou um processo desmedido de assinaturas e rabiscos habituais. Mas o habitualmente enervou-o, e o peso dos grilhões da apatia tomaram conta da sua mente tão acostumada à irreflexão dos seus actos. Eis que todos os homens famosos pela rebeldia se reuniram em sua mente para o alertar de que viver não é, de forma alguma, agradecer a serenidade que uma vida repleta de abundância lhe pode trazer. Então pensou na princesa abonecada e, ao contrário do que julgava, não se enterneceu como de costume. Sentiu um grande desejo de a atacar com a futilidade da sua existência. Até então não se apercebera de quão oca era a mente da mulher com quem partilhava o leito. E o esbelto corpo... quão efémero! O seu leito fora profanado pela aparência de uma sereia de terra. Como poderia ser-lhe tão infiel quando tudo o que ela lhe tentara proporcionar fora alegria e bem-estar? É a ingratidão Pedro, a desde sempre ingratidão. Evocou uma ocasião, daquelas melodramáticas, em que chegara a casa e a esposa o esperava no quarto perfumado, aperaltada como uma geisha submissa. A noite fora alucinante, ela estava perfeita tanto quanto a egocêntrica perfeição o permitiu. O seu corpo fora esculpido por divinos dedos, o rosto, o mais belo que tivera o prazer de tocar e a voz... a voz tinha o timbre das sereias que fizeram Ulisses cativo. Por tal musa, guerras despoletariam, reis se destronariam por uma cálida noite com Ariane. Toda aquela perfeição o incomodava, as frágeis mãos, os seios delicados e a extensa lista de atributos de Ariane, encolerizavam-no. Seria lícito desejar uma mulher susceptível de errar, pouco delgada, imperfeita, ao invés da deslumbrante figura que sempre o apoiara? Seria lícito almejar um anexo de um palacete, uma plebeia, uma carroça e um rafeiro?
Então Pedro compreendeu as razões de Adão e Eva e o que os levou à rejeição do Éden. Pedro constatou que o Criador lhes fizera um favor ao expulsá-los e que a saída do jardim estava longe de ser o castigo. A maçã colocara-os, aos três, frente à questão: como suportaremos o Paraíso?