Monday, September 04, 2006

Descrença

Não creio em Deus,
Matei-o na descrença em ti.
Fragmentei a omnipotência
Tanto quanto me dilaceraste o ego.
Às trevas penhorei a minh'alma
Num acto de perfeita insanidade.
Desejo-te a queda,
Justifico o Arcanjo que a gerou.
... E maturo a espera.
Ver-te-ei tombado
Entre os escombros da derrocada,
Desfeito em silvos de agonia,
De rojo à minha silhueta.
por fim, condenada,
Toda a mágoa posta em dia,
Crerei piamente em Deus.

Saturday, August 26, 2006

O inferno do Éden

Quem nao se reconhece no ritmo cansado do quotidiano, nao deve dar relevância a este texto. Este, especificamente, é o texto dos quase desistentes ante a fúria do dia-a-dia. Mas quase, é a alternativa de quem leu o texto e arriscou. Reflictamos sobre a necessidade de reflectir... e de tomada de decisão.
Pedro é um empresário afamado pelo sucesso do seu empenho. Nao alcançou a riqueza de mão beijada, trabalhou arduamente para se lançar na ribalta dos que nada têm falta. No entanto, o percurso é travesso, eu diria que mais do que travesso, é irónico, malicioso e espreita por entre o suprimento das carências dos demais. Sortudo, como é chamado pelos íntimos da roda em que se insere, vive na casa acastelada da zona in do Porto. É difícil descrevê-la com a densa e luxuriante vegetação envolvente, que a oculta dos olhares furtivos.
De manhã, a esposa, seguramente recortada de um anúncio televisivo ou de uma passarela parisiense, acompanha-o ao luxuoso carro estacionado frente ao palacete. Têm dois filhos esculpidos a preceito que estudam no colégio dos pequenos génios onde praticam esgrima, vai-se lá saber porquê. Até o pequeno Rockfeller, perdigueiro altaneiro, se bamboleia pela propriedade de focinho e pelo lustrosos, discriminando os curiosos espécimes rafeiros estáticos frente às grades do portão.
O que traja tem nomes que nao ouso pronunciar por indignação e até mesmo por ignorância, são marcas que me ultrapassam e envergonham por desconhecimento. A esposa veste o que a luxúria vestiria se tivesse corpo, um estilo entre o arrojado e a perda absoluta dos limites deste. O estereótipo da mulher desejável pelo comum mortal. Pedro tem a vida que mais de metade não ousa sequer simular... que mais de metade nao faz ideia de como é feliz por não a viver.
Eu sigo-o até ao imponente edifício onde passa os dias mergulhado em reuniões, na azáfama costumeira dos executivos. O escritório onde decide o destino de centenas de empregados, de elevadas quantias de dinheiro, tem vista para o fundo do horizonte através das luzidias janelas que dão para o mundo. E quanto a férias, Pedro não se enquadra no grupo dos empresários que vive do e para o trabalho sem descanso. As férias, os feriados e fins-de-semana são sagrados como o sétimo dia para o Altíssimo. A união da família é a prioridade limite da fronteira com o dever, por vezes tomba para o ofício, mas raramente adia a família. Com um quadro assim, pintado a tinta de óleo utopia, é difícil imaginar que a alma de Pedro possa ser tão escura e viscosa como o crude que assola as praias aquando de um naufrágio. Também me custou crer que se pudesse ser tão ingrato com a bandeja de prata que a vida nos estende. O ser humano, seja ele quem for, é ingrato por génese e desde Génesis. O primeiro pecado não foi o da desobediência, como por aí se apregoa, mas o da tremenda ingratidão. Pedro peca como Adão, como Eva, como Pinóquio, como um bando de criaturas feitas à semelhança do inventor. Foi então que perdi a esperança em alcançar a perfeição, a tal felicidade enfadonha, alvo de um Universo intrinsecamente insatisfeito. Afinal, perseguimos o que jamais alcançaremos e alcançamos sempre o pedaço que falta para um fim que não chega.
Nessa manhã, a princesa da casa acastelada cumpriu o protocolo matinal e acompanhou o marido ao cavalo de raça pura e tudo se fez como se esperava que fosse feito, dentro da frivolidade diária. Mas o dia não seria como os outros, o príncipe acordara com a dor-de-cabeça dos homens que a determinada altura do percurso resolvem olhar para trás e questioná-lo. Não olhar para trás é uma das leis vigentes de quem quer chegar ao final da recta, de quem quer ser salvo. É um ensinamento ancestral que remonta a Sodoma e Gomorra e às estátuas de sal. Pedro fez-se sal nessa manhã e com ele tudo o que edificara ruiu.
Entrou no escritório e pediu o café habitual, bebeu-o como habitualmente o fazia, pegou na caneta e iniciou um processo desmedido de assinaturas e rabiscos habituais. Mas o habitualmente enervou-o, e o peso dos grilhões da apatia tomaram conta da sua mente tão acostumada à irreflexão dos seus actos. Eis que todos os homens famosos pela rebeldia se reuniram em sua mente para o alertar de que viver não é, de forma alguma, agradecer a serenidade que uma vida repleta de abundância lhe pode trazer. Então pensou na princesa abonecada e, ao contrário do que julgava, não se enterneceu como de costume. Sentiu um grande desejo de a atacar com a futilidade da sua existência. Até então não se apercebera de quão oca era a mente da mulher com quem partilhava o leito. E o esbelto corpo... quão efémero! O seu leito fora profanado pela aparência de uma sereia de terra. Como poderia ser-lhe tão infiel quando tudo o que ela lhe tentara proporcionar fora alegria e bem-estar? É a ingratidão Pedro, a desde sempre ingratidão. Evocou uma ocasião, daquelas melodramáticas, em que chegara a casa e a esposa o esperava no quarto perfumado, aperaltada como uma geisha submissa. A noite fora alucinante, ela estava perfeita tanto quanto a egocêntrica perfeição o permitiu. O seu corpo fora esculpido por divinos dedos, o rosto, o mais belo que tivera o prazer de tocar e a voz... a voz tinha o timbre das sereias que fizeram Ulisses cativo. Por tal musa, guerras despoletariam, reis se destronariam por uma cálida noite com Ariane. Toda aquela perfeição o incomodava, as frágeis mãos, os seios delicados e a extensa lista de atributos de Ariane, encolerizavam-no. Seria lícito desejar uma mulher susceptível de errar, pouco delgada, imperfeita, ao invés da deslumbrante figura que sempre o apoiara? Seria lícito almejar um anexo de um palacete, uma plebeia, uma carroça e um rafeiro?
Então Pedro compreendeu as razões de Adão e Eva e o que os levou à rejeição do Éden. Pedro constatou que o Criador lhes fizera um favor ao expulsá-los e que a saída do jardim estava longe de ser o castigo. A maçã colocara-os, aos três, frente à questão: como suportaremos o Paraíso?

Thursday, July 27, 2006

Amantes

Teus dedos firmes
Em meus cabelos desgrenhados,
Nos seios insuflados de ardor,
A voracidade dos teus lábios.
Meu corpo fremente
Em convulsões lascivas,
No teu, vencido p'lo cansaço,
se aninha.
E os teus olhos amor...
Os teus olhos de Levante
Perscrutam-me os desígnios,
Tocam-me a alma ofegante.
A noite contém-se,
Cúmplice do nosso desvario.
O leito que amortece nossos corpos
Assiste à euforia dos amantes.
Extenuados,
Selamos o extático suspiro com um beijo.
O dia prerrompe...

Tuesday, July 11, 2006

As noites não se adivinham (continuação)

O rapaz do café encontrou-me no supermercado e pediu-me desculpa pelo comentário. Não o desculpei porque com os direitos de autor não se brinca. Já não me acena quando por lá passo, às vezes ávida de um piropo. Creio que fez uma promessa, não daquelas que se cumprem de joelhos, qualquer coisa menos sórdida. Sinto falta das palavras que te roubou, das ideias que plagiou para me impressionar. Clichés ou não, sempre preenchiam as lacunas que deixaste em branco. É redundante, mas necessário que se perceba que não as preencheste, que até as branqueaste. É necessário que eu o perceba.
Escrevi-te uma carta em papel reciclado como se da nossa reciclagem se tratasse. Foi devolvida ao remetente, motivo: mudança de residência. Foste tu que te mudaste ou eu?
Já lá vai algum tempo desde que ir ao café deixou de ser prioritário. Atrevo-me a dizer que já lá vai algum tempo desde que o tempo deixou de te procurar, já nem esporadicamente te visita. O que é esporádico tende a desvanecer como se prova. Saberás ainda de cor o meu nome? Há muito que não me recordo do teu ou como me chamava perto de ti. É um tipo de amnésia conveniente que se aloja mesmo ao lado da memória, mesmo muito ao lado da memória...
O rapaz do café casou. Não que os eventos da sua vida me interessem, mas porque o vi desfilar-se num daqueles carros semelhantes aos funerários porque transportam pessoas que se enterram vivas e não têm a noção. E tu, ainda estarás vivo? Não respondas porque no fundo sei que se fosses naquele carro, negá-lo-ia com veemência.
Continuo a enviar-te cartas praticamente todos os meses, mesmo sabendo que já não moras aí... a última que me foi devolvida indicava falecimento. Voltei a ficar confusa. Mudarias, só agora, de residência?
No próximo mês escrever-te-ei pela última vez, quero certificar-me de que não voltarás a mudar-te da minha vida. Já estou a fazer as malas. Vou comprar-te uma caneta de tinta permanente para que permanentemente me escrevas. É daquelas canetas cuja tinta se fixa em qualquer superfície da imaginação. Talvez compre duas porque estamos em época de saldos. Estou encantada com a viagem, mal posso esperar por te abraçar. Foi demasiado tempo à espera que tomasses a iniciativa.
Está tudo pronto, parto em breve. Espero que me esperes à chegada. É sempre assim que acontece nos filmes. Vou deixar um bilhete à empregada da limpeza, se te conhecesse perceberia que tenho de ir ao teu encontro e que reúno todos os motivos para te perdoar a demora. Se te conhecesse, talvez também quisesse ir comigo. Sempre foste assim, sempre arrastaste multidões, corações e almas que se venderam ao Hades para te tocar. Espera por mim que me sinto adormecer... Já te vejo... Sim, és tu e as tuas delicadas mãos que se abrem para me enlaçar. O teu sorriso está intacto como da última vez. Mas não sou capaz, não foste marcante o suficiente para que por ti parta. Não mereces, nem eu mereço ser despojada de vida por quem, em vida, se despojou de mim. Vou desistir da viagem em resposta às viagens das quais não desististe. Prefiro crer que tivemos um acidente e eu sobrevivi. Venci-te... Sobrevivi, julgo. Mas e tu, será que morreste?

Sunday, July 09, 2006

As noites não se adivinham

Foi numa noite similar, de formigueiro, que me invocaste como se invocam as Musas ou os espíritos saudosos. Não foi a tua feral voz que me induziu a partir, nem tão pouco o falsete do palavreado que não abdicaste trabalhar, ornamentar, enfim, fazer o que melhor sabes... dividir a mentira até que a verdade se confunda. A frase é enorme, uma espécie de comboio directo que ensurdece os passageiros estacionários nas plataformas das estações. Nem vírgulas ou qualquer outro tipo de pontuação poderiam travar o turbilhão de hormonas que tripudiavam no meu corpo.
Saí de casa expectante, quem me chamou esperava-me, de facto, a mim ou à expectativa de compatibilidade. Vesti-me de turquesa, cor cintilante em minha pele fustigada pelo sol carrasco, e, insegura, como uma criança perdida na infância, envolvi os cabelos no aroma mágico que guardei para ti. Continua na prateleira à espera de um novo começo, de um fragmento de vida tão igual ao nosso. Por vezes destapo-o e deixo que a fragrância me leve ao teu leito e então, suspensa sobre o teu corpo, beijo-te, beijo-te e tapo-o novamente.
Um destes dias, por entre o amontoado imperceptível de gente apressada, cruzei-me connosco nesse aroma singular. Alguém desfilou um rol de emoções que nos pertencem e que se avivam apenas porque as grandes superfícies insistem em continuar a vender-nos em série. Um perfume assim deveria ser inédito. Tu és inédito. Eras. Eu sou inédita por te ter julgado ímpar. Era.
O rapaz do café julgou tecer-me um elogio quando disse que os meus olhos são nenúfares no Outono, nenúfares no Outono! O rapaz do café atreveu-se a citar-te! Fiquei confusa. Será este rapaz invulgar ou tu simplesmente banal? Não fui mais ao café. Nenúfares no Outono, dito por ele, soavam-me a abrolhos no Inverno. Quis ligar-te e pedir-te uma explicação. Queria que não a tivesses... não liguei. Agora percebo porque me deleitava ouvir-te, se citasses a lista de ingredientes de uma caixa de cereais seria, para mim, poesia. Porque os ingredientes têm muito que se lhe diga e a composição química é um mundo por explorar. Mas um poema de Cesariny ou da neurasténica Florbela, na boca do rapaz do café seria, no mínimo, um texto da secção necrológica de um jornal local. Por isso te repetias em clichés gastos e desfeitos pelo excesso de uso que em mim adquiriam formas anatómicas, novas e muito frescas. Era também por esse motivo que quando apregoava aos sete-ventos as frases pré-fabricadas que inacreditavelmente me embalavam, a ninguém admirava. Só a mim, naif continuamente deslumbrada.
(Continua)

Friday, June 30, 2006

Pretensão

Faz hoje um ano
Que os meus lábios se abriram
Num sorriso raro de contentamento,
Um ano desde que me votei
Ao acre isolamento.
Da tua memória me arrancaste implacável.
Engano o meu!
Arrancar pressupõe enraizamento.
Quem me dera ter criado raízes
Nessa fértil mente!
Um ano desde que me tornei descrente.
Por mim passará um rol de décadas
Sem que se me apague da memória
O dia em que os meus lábios ingenuamente
Esboçaram um sorriso de vanglória.

Douro

Junto ao Douro recordo
O cárcere de teu olhar,
A clausura de teus beijos
De que me anseio libertar.

Planam gaivotas sobre o rio,
Evocam memórias sem-par.
Meu sorriso, de Rabelo partiu,
Rebelou-se ao invés de aceitar.

Tua longânime voz é-me fel,
Pensar-te é mau agouro,
A saudade partiu num batel,
Um batel que naufraga no Douro.

Tuesday, June 27, 2006

Ampulheta

Há dias em que me cobrem asas negras
E quando choro há velas acesas
Que ao derreterem velam por mim.
Dias em que a noite impera
Em austeridade e tirania
Em que o silêncio não é senão
A cratera de um vulcão em agonia.
Entre nós, entre o abismo que nos une,
Está a lendária ampulheta do Tempo
E do passado,o aziago perfume.