Viagens
Talvez não saibas que quando viajas eu sempre te sigo. Mentes se ao anfitriares* a noite não me sentes contigo. Eu sei que pressentes o consolo, o afago da minh’alma intrusa. No leito, confessa que te sabes contemplado à exaustão. Sim amor, sou eu debruçada sobre ti em oração.
De madrugada, já dormindo a sono solto, sempre te cobre o meu corpo da algidez noctívaga. Claro que sou eu, amor boémio, que atravesso o teu quarto flutuando e pouso junto a ti sem te acordar. Como ousaste duvidar? Sou o silêncio que veneras, o vulto da quietude que prezas, a melodia do vento que sopra p’ra te embalar. Quando a insónia te desafia, crê, eu sou a poesia que se atropela de ti ao papel.
Ao banhares-te, p’la manhã, espanta-me que não me reconheças na água espraiada em tua pele, no crescendo da espuma em teu batel, no turco que te enxuga em saudade.
Em tudo sou eu. Sou eu em tudo o que te envolve. Por isso acordo extenuada, de tanto contigo viajar. Porque, infelizmente, quando partes nunca me deixas ficar.
*anfitriar é uma palavra que se eleva contra a norma linguística. Terei eu o direito de me apropriar de um substantivo e adaptá-lo a meu bel-prazer?

1 Comments:
Por tal viagem cederia metade do tempo que me resta.
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