Tuesday, July 11, 2006

As noites não se adivinham (continuação)

O rapaz do café encontrou-me no supermercado e pediu-me desculpa pelo comentário. Não o desculpei porque com os direitos de autor não se brinca. Já não me acena quando por lá passo, às vezes ávida de um piropo. Creio que fez uma promessa, não daquelas que se cumprem de joelhos, qualquer coisa menos sórdida. Sinto falta das palavras que te roubou, das ideias que plagiou para me impressionar. Clichés ou não, sempre preenchiam as lacunas que deixaste em branco. É redundante, mas necessário que se perceba que não as preencheste, que até as branqueaste. É necessário que eu o perceba.
Escrevi-te uma carta em papel reciclado como se da nossa reciclagem se tratasse. Foi devolvida ao remetente, motivo: mudança de residência. Foste tu que te mudaste ou eu?
Já lá vai algum tempo desde que ir ao café deixou de ser prioritário. Atrevo-me a dizer que já lá vai algum tempo desde que o tempo deixou de te procurar, já nem esporadicamente te visita. O que é esporádico tende a desvanecer como se prova. Saberás ainda de cor o meu nome? Há muito que não me recordo do teu ou como me chamava perto de ti. É um tipo de amnésia conveniente que se aloja mesmo ao lado da memória, mesmo muito ao lado da memória...
O rapaz do café casou. Não que os eventos da sua vida me interessem, mas porque o vi desfilar-se num daqueles carros semelhantes aos funerários porque transportam pessoas que se enterram vivas e não têm a noção. E tu, ainda estarás vivo? Não respondas porque no fundo sei que se fosses naquele carro, negá-lo-ia com veemência.
Continuo a enviar-te cartas praticamente todos os meses, mesmo sabendo que já não moras aí... a última que me foi devolvida indicava falecimento. Voltei a ficar confusa. Mudarias, só agora, de residência?
No próximo mês escrever-te-ei pela última vez, quero certificar-me de que não voltarás a mudar-te da minha vida. Já estou a fazer as malas. Vou comprar-te uma caneta de tinta permanente para que permanentemente me escrevas. É daquelas canetas cuja tinta se fixa em qualquer superfície da imaginação. Talvez compre duas porque estamos em época de saldos. Estou encantada com a viagem, mal posso esperar por te abraçar. Foi demasiado tempo à espera que tomasses a iniciativa.
Está tudo pronto, parto em breve. Espero que me esperes à chegada. É sempre assim que acontece nos filmes. Vou deixar um bilhete à empregada da limpeza, se te conhecesse perceberia que tenho de ir ao teu encontro e que reúno todos os motivos para te perdoar a demora. Se te conhecesse, talvez também quisesse ir comigo. Sempre foste assim, sempre arrastaste multidões, corações e almas que se venderam ao Hades para te tocar. Espera por mim que me sinto adormecer... Já te vejo... Sim, és tu e as tuas delicadas mãos que se abrem para me enlaçar. O teu sorriso está intacto como da última vez. Mas não sou capaz, não foste marcante o suficiente para que por ti parta. Não mereces, nem eu mereço ser despojada de vida por quem, em vida, se despojou de mim. Vou desistir da viagem em resposta às viagens das quais não desististe. Prefiro crer que tivemos um acidente e eu sobrevivi. Venci-te... Sobrevivi, julgo. Mas e tu, será que morreste?

3 Comments:

Blogger ricardo said...

as relações sao por vezes acidentes violentissimos, mas, acabamos por sobreviver-lhes. quanto tempo demoramos a perder a vontade de escrever cartas? (ao passado)quantos rapazes do café conhecemos na vida? e será que são mesmo rapazes do café? ou serão outra coisa que nós, por medo, não conseguimos ver? que acidente é necessário ocorrer para que o medo se transforme num pequeno susto? parece que às vezes sobreviver é o pior, mas é necessário para recomeçarmos a viver!
continuei a gostar, muito!
um beijo.

6:23 PM  
Blogger colher de chá said...

gosto das garças que ao de leve aqui se cantam...

10:02 AM  
Blogger Agente Era said...

Oi. Aqui estou eu como prometido. Estou verdadeiramente surpreendida... pela positiva, é claro. Ainda não li tudo, mas vejo que decobriste algo que gostas realmente de fazer. Consigo identificar bastante daquilo que escreves. Gostei... vou continuar a ler. Um beijo bem grande.

4:52 AM  

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