As noites não se adivinham
Foi numa noite similar, de formigueiro, que me invocaste como se invocam as Musas ou os espíritos saudosos. Não foi a tua feral voz que me induziu a partir, nem tão pouco o falsete do palavreado que não abdicaste trabalhar, ornamentar, enfim, fazer o que melhor sabes... dividir a mentira até que a verdade se confunda. A frase é enorme, uma espécie de comboio directo que ensurdece os passageiros estacionários nas plataformas das estações. Nem vírgulas ou qualquer outro tipo de pontuação poderiam travar o turbilhão de hormonas que tripudiavam no meu corpo.
Saí de casa expectante, quem me chamou esperava-me, de facto, a mim ou à expectativa de compatibilidade. Vesti-me de turquesa, cor cintilante em minha pele fustigada pelo sol carrasco, e, insegura, como uma criança perdida na infância, envolvi os cabelos no aroma mágico que guardei para ti. Continua na prateleira à espera de um novo começo, de um fragmento de vida tão igual ao nosso. Por vezes destapo-o e deixo que a fragrância me leve ao teu leito e então, suspensa sobre o teu corpo, beijo-te, beijo-te e tapo-o novamente.
Um destes dias, por entre o amontoado imperceptível de gente apressada, cruzei-me connosco nesse aroma singular. Alguém desfilou um rol de emoções que nos pertencem e que se avivam apenas porque as grandes superfícies insistem em continuar a vender-nos em série. Um perfume assim deveria ser inédito. Tu és inédito. Eras. Eu sou inédita por te ter julgado ímpar. Era.
O rapaz do café julgou tecer-me um elogio quando disse que os meus olhos são nenúfares no Outono, nenúfares no Outono! O rapaz do café atreveu-se a citar-te! Fiquei confusa. Será este rapaz invulgar ou tu simplesmente banal? Não fui mais ao café. Nenúfares no Outono, dito por ele, soavam-me a abrolhos no Inverno. Quis ligar-te e pedir-te uma explicação. Queria que não a tivesses... não liguei. Agora percebo porque me deleitava ouvir-te, se citasses a lista de ingredientes de uma caixa de cereais seria, para mim, poesia. Porque os ingredientes têm muito que se lhe diga e a composição química é um mundo por explorar. Mas um poema de Cesariny ou da neurasténica Florbela, na boca do rapaz do café seria, no mínimo, um texto da secção necrológica de um jornal local. Por isso te repetias em clichés gastos e desfeitos pelo excesso de uso que em mim adquiriam formas anatómicas, novas e muito frescas. Era também por esse motivo que quando apregoava aos sete-ventos as frases pré-fabricadas que inacreditavelmente me embalavam, a ninguém admirava. Só a mim, naif continuamente deslumbrada.
(Continua)

4 Comments:
...e as pessoas também não!julgo ter lido quase todos os textos do blog, mas escolhi comentar este porque foi escrito no dia em que acordei de uma noite que não podia adivinhar.
vivemos o presente afantasmados pelo passado, pelas frases que ouvimos, pelos odores que cheirámos... identifiquei-me com esta vivência de nostalgia! gosto muito do que escreves. não podia adivinhar-te, mas não pude impedir-me de querer fazê-lo!
anseio pela continuação...
um beijo.
que bonito.
escreves num tom aveludado e ao mesmo tempo fresco, suave e ao mesmo tempo cortante.
que bonito.
gosto tanto.
Indirita, gostei muito... concordo com a sara, e estás a surpreender-me cada vez mais com a tua escrita. Beijinhos
Hey what a great site keep up the work its excellent.
»
Post a Comment
<< Home