Friday, June 30, 2006

Pretensão

Faz hoje um ano
Que os meus lábios se abriram
Num sorriso raro de contentamento,
Um ano desde que me votei
Ao acre isolamento.
Da tua memória me arrancaste implacável.
Engano o meu!
Arrancar pressupõe enraizamento.
Quem me dera ter criado raízes
Nessa fértil mente!
Um ano desde que me tornei descrente.
Por mim passará um rol de décadas
Sem que se me apague da memória
O dia em que os meus lábios ingenuamente
Esboçaram um sorriso de vanglória.

Douro

Junto ao Douro recordo
O cárcere de teu olhar,
A clausura de teus beijos
De que me anseio libertar.

Planam gaivotas sobre o rio,
Evocam memórias sem-par.
Meu sorriso, de Rabelo partiu,
Rebelou-se ao invés de aceitar.

Tua longânime voz é-me fel,
Pensar-te é mau agouro,
A saudade partiu num batel,
Um batel que naufraga no Douro.

Tuesday, June 27, 2006

Ampulheta

Há dias em que me cobrem asas negras
E quando choro há velas acesas
Que ao derreterem velam por mim.
Dias em que a noite impera
Em austeridade e tirania
Em que o silêncio não é senão
A cratera de um vulcão em agonia.
Entre nós, entre o abismo que nos une,
Está a lendária ampulheta do Tempo
E do passado,o aziago perfume.

Friday, June 23, 2006

Heresia


Minhas mãos inexperientes
Percorrem teu corpo versado
Contra o meu tão acanhado
Por beijos irreverentes.

Suspiros entrecortados
Ocultam segredos lúbricos
Ânsias, prazeres impudicos
Gestos acetinados.

Como herege, acusada
De caminhos errantes
Trago a alma inebriada
Pl’o fervor das Bacantes.

Viagens


Talvez não saibas que quando viajas eu sempre te sigo. Mentes se ao anfitriares* a noite não me sentes contigo. Eu sei que pressentes o consolo, o afago da minh’alma intrusa. No leito, confessa que te sabes contemplado à exaustão. Sim amor, sou eu debruçada sobre ti em oração.
De madrugada, já dormindo a sono solto, sempre te cobre o meu corpo da algidez noctívaga. Claro que sou eu, amor boémio, que atravesso o teu quarto flutuando e pouso junto a ti sem te acordar. Como ousaste duvidar? Sou o silêncio que veneras, o vulto da quietude que prezas, a melodia do vento que sopra p’ra te embalar. Quando a insónia te desafia, crê, eu sou a poesia que se atropela de ti ao papel.
Ao banhares-te, p’la manhã, espanta-me que não me reconheças na água espraiada em tua pele, no crescendo da espuma em teu batel, no turco que te enxuga em saudade.
Em tudo sou eu. Sou eu em tudo o que te envolve. Por isso acordo extenuada, de tanto contigo viajar. Porque, infelizmente, quando partes nunca me deixas ficar.

*anfitriar é uma palavra que se eleva contra a norma linguística. Terei eu o direito de me apropriar de um substantivo e adaptá-lo a meu bel-prazer?

Tuesday, June 20, 2006

TEMPO


O meu maior contentamento é saber-me cativa de um Tempo que também te agrilhoou; um Cronos soberbo que nos impele ao caminho estreito que Deus, por nós, traçou. No vértice do atalho, a glória alcançou-nos. Se não o crês, em verdade te digo que contornaste o manjar de beijos que a ti consagrei, falhaste o grande ensejo da alvura de meu toque, meus sinais de maga laceraste. Se me conhecesses de cor, saberias que um dom me habita as entranhas, que encerro raras façanhas e ao agoiro ordeno debandada. Saber-me-ias, por certo, no cume da descoberta, por excelsas mãos fadada. Se soubesses amor... se tão-somente me conhecesses... contra o nosso mortal fim seria antídoto, Pedra Filosofal em solo nemoroso, nenúfar do Tempo que o Tempo nos ceifou.É um convite sem-par que te faço, em troca da melodia de teus dedos, as teclas da vida em meu regaço.

Monday, June 12, 2006

Saudades

Não são saudades de ti,
Mas de mim,
Da metade que partiu,
Se emancipou em rebeldia
E te seguiu.
Metade de mim
partiu em tua demanda.
Alma nefanda tudo levou.
Estou só, oca, vazia,
Por minh'alma condenada.
Só, oca, vazia
E por sua aleivosia
Desde então desalmada.