Thursday, July 27, 2006

Amantes

Teus dedos firmes
Em meus cabelos desgrenhados,
Nos seios insuflados de ardor,
A voracidade dos teus lábios.
Meu corpo fremente
Em convulsões lascivas,
No teu, vencido p'lo cansaço,
se aninha.
E os teus olhos amor...
Os teus olhos de Levante
Perscrutam-me os desígnios,
Tocam-me a alma ofegante.
A noite contém-se,
Cúmplice do nosso desvario.
O leito que amortece nossos corpos
Assiste à euforia dos amantes.
Extenuados,
Selamos o extático suspiro com um beijo.
O dia prerrompe...

Tuesday, July 11, 2006

As noites não se adivinham (continuação)

O rapaz do café encontrou-me no supermercado e pediu-me desculpa pelo comentário. Não o desculpei porque com os direitos de autor não se brinca. Já não me acena quando por lá passo, às vezes ávida de um piropo. Creio que fez uma promessa, não daquelas que se cumprem de joelhos, qualquer coisa menos sórdida. Sinto falta das palavras que te roubou, das ideias que plagiou para me impressionar. Clichés ou não, sempre preenchiam as lacunas que deixaste em branco. É redundante, mas necessário que se perceba que não as preencheste, que até as branqueaste. É necessário que eu o perceba.
Escrevi-te uma carta em papel reciclado como se da nossa reciclagem se tratasse. Foi devolvida ao remetente, motivo: mudança de residência. Foste tu que te mudaste ou eu?
Já lá vai algum tempo desde que ir ao café deixou de ser prioritário. Atrevo-me a dizer que já lá vai algum tempo desde que o tempo deixou de te procurar, já nem esporadicamente te visita. O que é esporádico tende a desvanecer como se prova. Saberás ainda de cor o meu nome? Há muito que não me recordo do teu ou como me chamava perto de ti. É um tipo de amnésia conveniente que se aloja mesmo ao lado da memória, mesmo muito ao lado da memória...
O rapaz do café casou. Não que os eventos da sua vida me interessem, mas porque o vi desfilar-se num daqueles carros semelhantes aos funerários porque transportam pessoas que se enterram vivas e não têm a noção. E tu, ainda estarás vivo? Não respondas porque no fundo sei que se fosses naquele carro, negá-lo-ia com veemência.
Continuo a enviar-te cartas praticamente todos os meses, mesmo sabendo que já não moras aí... a última que me foi devolvida indicava falecimento. Voltei a ficar confusa. Mudarias, só agora, de residência?
No próximo mês escrever-te-ei pela última vez, quero certificar-me de que não voltarás a mudar-te da minha vida. Já estou a fazer as malas. Vou comprar-te uma caneta de tinta permanente para que permanentemente me escrevas. É daquelas canetas cuja tinta se fixa em qualquer superfície da imaginação. Talvez compre duas porque estamos em época de saldos. Estou encantada com a viagem, mal posso esperar por te abraçar. Foi demasiado tempo à espera que tomasses a iniciativa.
Está tudo pronto, parto em breve. Espero que me esperes à chegada. É sempre assim que acontece nos filmes. Vou deixar um bilhete à empregada da limpeza, se te conhecesse perceberia que tenho de ir ao teu encontro e que reúno todos os motivos para te perdoar a demora. Se te conhecesse, talvez também quisesse ir comigo. Sempre foste assim, sempre arrastaste multidões, corações e almas que se venderam ao Hades para te tocar. Espera por mim que me sinto adormecer... Já te vejo... Sim, és tu e as tuas delicadas mãos que se abrem para me enlaçar. O teu sorriso está intacto como da última vez. Mas não sou capaz, não foste marcante o suficiente para que por ti parta. Não mereces, nem eu mereço ser despojada de vida por quem, em vida, se despojou de mim. Vou desistir da viagem em resposta às viagens das quais não desististe. Prefiro crer que tivemos um acidente e eu sobrevivi. Venci-te... Sobrevivi, julgo. Mas e tu, será que morreste?

Sunday, July 09, 2006

As noites não se adivinham

Foi numa noite similar, de formigueiro, que me invocaste como se invocam as Musas ou os espíritos saudosos. Não foi a tua feral voz que me induziu a partir, nem tão pouco o falsete do palavreado que não abdicaste trabalhar, ornamentar, enfim, fazer o que melhor sabes... dividir a mentira até que a verdade se confunda. A frase é enorme, uma espécie de comboio directo que ensurdece os passageiros estacionários nas plataformas das estações. Nem vírgulas ou qualquer outro tipo de pontuação poderiam travar o turbilhão de hormonas que tripudiavam no meu corpo.
Saí de casa expectante, quem me chamou esperava-me, de facto, a mim ou à expectativa de compatibilidade. Vesti-me de turquesa, cor cintilante em minha pele fustigada pelo sol carrasco, e, insegura, como uma criança perdida na infância, envolvi os cabelos no aroma mágico que guardei para ti. Continua na prateleira à espera de um novo começo, de um fragmento de vida tão igual ao nosso. Por vezes destapo-o e deixo que a fragrância me leve ao teu leito e então, suspensa sobre o teu corpo, beijo-te, beijo-te e tapo-o novamente.
Um destes dias, por entre o amontoado imperceptível de gente apressada, cruzei-me connosco nesse aroma singular. Alguém desfilou um rol de emoções que nos pertencem e que se avivam apenas porque as grandes superfícies insistem em continuar a vender-nos em série. Um perfume assim deveria ser inédito. Tu és inédito. Eras. Eu sou inédita por te ter julgado ímpar. Era.
O rapaz do café julgou tecer-me um elogio quando disse que os meus olhos são nenúfares no Outono, nenúfares no Outono! O rapaz do café atreveu-se a citar-te! Fiquei confusa. Será este rapaz invulgar ou tu simplesmente banal? Não fui mais ao café. Nenúfares no Outono, dito por ele, soavam-me a abrolhos no Inverno. Quis ligar-te e pedir-te uma explicação. Queria que não a tivesses... não liguei. Agora percebo porque me deleitava ouvir-te, se citasses a lista de ingredientes de uma caixa de cereais seria, para mim, poesia. Porque os ingredientes têm muito que se lhe diga e a composição química é um mundo por explorar. Mas um poema de Cesariny ou da neurasténica Florbela, na boca do rapaz do café seria, no mínimo, um texto da secção necrológica de um jornal local. Por isso te repetias em clichés gastos e desfeitos pelo excesso de uso que em mim adquiriam formas anatómicas, novas e muito frescas. Era também por esse motivo que quando apregoava aos sete-ventos as frases pré-fabricadas que inacreditavelmente me embalavam, a ninguém admirava. Só a mim, naif continuamente deslumbrada.
(Continua)